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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Ontem, Hoje e Amanhã



Eu disse ao meu amigo,
"Você a está vendo apoiando-se no braço dele?
Pois ontem ela se apoiava no meu braço."

E ele completou:
" Amanhã, ela se apoiará no meu."

E eu disse,
"Veja-a como se senta ao lado dele;
No entanto, ontem ela se sentou ao meu lado."

E ele retrucou:
" Amanhã, ela sentará junto a mim."

E eu disse:
" Está vendo como ela agora bebe na taça dele?
Ontem, contudo, ela bebeu de minha taça."

E ele respondeu:
"Pois, amanhã ela beberá da minha."

E eu disse:
"Veja como ela olha para ele com os olhos de amor !
Era assim, amorosa, que ontem me fitava."

E ele observou:
"Amanhã, ela me olhará da mesma forma."

E eu disse:
" Ouça como ela sussura canções de amor nos ouvidos dele.
Ontem, era nos meus que ela sussurava essas canções."

E ele acrescentou:
" Amanhã, ela cantarolará nos meus."

E eu disse:
Veja-a como o abraça;
ontem,era a mim que ela abraçava."

E ele observou:
" Amanhã ela se entregará nos meus braços."

E eu disse:
" Que estranha mulher é ela !"

E ele esclareceu:
" Ela é a Vida."


Kahlil Gibran

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Deus Decepção




Eu,
Cheio de preconceitos,
Racista!
Eu,
Com falsos conceitos,
Neo-nazista!
Eu,
Detestando pretos.
Eu, sem coração...
Eu,
Perdido num coreto
Gritando: "_ Separação!"
Eu, Você,
Nós... nós todos,
Cheios de preconceitos,
Fugindo como se eles carregassem lodo
Lodo na cor... E com petulância,
Arrogância,
Afastando a pele irmã.
... Mas
... Estou pensando agora:
E quando chegar minha hora???
Meu Deus, se eu morresse amanhã,
De manhã???
Numa viagem esquisita,
Entre nuvens feias e bonitas,
Se eu chegasse lá?
E um porteiro manco,
Como os aleijados que eu gozei,
Viesse abrir a porta,
E eu reparasse sua vista torta,
Igual aquela que eu critiquei?
Se sua mão tateasse pelo trinco,
Como as mãos do cego que não ajudei?
Se a porta rangesse,
Chorando os choros que provoquei?
Se uma criança me tomasse pela mão,
Criança como aquela que não embalei...?
E me levasse por um corredor florido,
Colorido,
Como as flores que eu jamais dei?
Se eu sentisse o chão frio,
Como dos presídios que não visitei?
Se eu visse as paredes caindo,
Como das creches e asilos que não ajudei?
Corpos que eu não levantei
Dando desculpas que era bêbados, mas eram epiléticos,
Que era vagabundagem, mas era fome.
Meu Deus!
Agora me assusta pronunciar seu nome!
E se mais pra frente a criança cobrisse um corpo nu,
Da prostituta que eu usei,
Ou do moribundo que não olhei,
Ou da velha que não respeitei,
Ou da mãe que não amei...?
Corpo de alguém exposto,
Jogado por minha causa,
Porque não estendi a mão,
Porque no amor fiz pausa
E dei, sei lá, só dei desgostos.

E, no fim do corredor, o inicio da decepção!
Que raiva, que desespero,
Se visse o mecânico, o operário,
Aquele vizinho, o maldito funcionário,
E até, até o padeiro,
Todos sorrindo não sei de quê...
Ah! sei sim, riem da minha decepção.
Deus não está vestido de ouro,
Mas como???
Está num simples trono.
Simples como não fui,
Humilde como não sou.
Deus decepção!
Deus na cor que eu não queria,
Deus cara-a-cara, face-a face
Sem aquela imponente classe
Deus simples! Deus negro!
Deus negro!
E eu... racista,
Egoísta,
E agora???
Na terra só persegui os pretos,
Não aluguei casa, não apertei a mão.
Meu Deus você é negro, que desilusão.
Será que vai me dar uma morada?
Será que vai apertar minha mão?
Que nada!
Meus Deus você é negro, que decepção!
Não dei emprego, virei o rosto
E agora? Será que vão me dar um canto,
Vai me cobrir com seu manto?
Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada que dei???
Deus, eu não podia adivinhar,
Por que você se fez assim?
Por que se fez preto,
Preto como o engraxate,
Aquele que expulsei da frente de casa.
Deus, pregaram você na cruz
E você me pregou uma peça,
Eu me esforcei à beça
Em tantas coisas, e cheguei até a pensar em amor,
Mas nunca, nunca pensei em adivinhar sua cor!

( Autor - Neimar De Barros )